‘Nunca sonhei que iria tocar para tanta gente’, diz Romy, popstar ‘tímida’ do The xx

The xx no Lollapalooza 2017
CamilaCara-MRossi/Divulgação The xx no Lollapalooza 2017

Romy Madley Croft é um enigma. A vocalista e guitarrista da The xx não é celebridade das redes sociais e a única vez que a vida fora dos palcos virou notícia foi no começo deste ano, quando anunciou o noivado com a designer Hannah Marshall.

Entrevistou o ícone do dream pop em um restaurante de São Paulo, na terça (28), e ela contou que a timidez é uma “luta”. Nosso encontro ocorreu três dias depois do grupo ter sido um dos headliners do Lollapalooza e comprovar seu gigantismo. No show, a música atmosférica dos ingleses foi recebida com reverência. Darks para as massas.

O trio maravilha, formado também por Jamie xx e Oliver Sim, lançou I See You, terceiro álbum de estúdio do The xx, em janeiro e surpreendeu a crítica e os fãs pela forma como conseguiram manter as características dos outros dois trabalhos da banda, como os beats hipnóticos, sintetizadores climáticos e dobradinha entre baixo e guitarra que os aproximam do pós-punk, aliados a nova explorações de timbres e melodias. Tudo isso tendo a voz de Oliver e Romy à frente como um yin-yang.

“Eu acho que é algo que eu tenho que fazer. No começo, a gente não fazia música com ambição. A gente nunca sonhou que iria tocar em um palco para tanta gente que ama nossa música. Eu acho que aquela paixão continua lá. Mesmo se ninguém estiver ouvindo, eu vou continuar fazendo música”, afirma Romy sobre o que a motiva a querer fazer uma música nova.

A inglesa comentou sobre como é ser uma popstar tímida: “Tem sido uma batalha. Porque, de uma hora para outra, você sobe ao palco e as pessoas esperam que você faça algo, diga algo. Eu continuo batalhando com isso, algumas vezes. Estar em uma banda me deu um monte de confiança, realmente ajuda na minha vida. Se eu quero dizer algo, ponho na minha cabeça aquilo que eu tenho para dizer”.

The xx no Lollapalooza 2017
BrenoGaltier-MRossi/Divulgação The xx no Lollapalooza 2017

Romy contou também como é um dia normal da sua vida em Londres. “Acho que é o oposto de quando eu estou em turnê. Tudo anda tão rápido, você vai de um lugar a outro muito rápido. Quando eu volto, a minha vida segue bem devagar. Vejo amigos, vou a parques, eu sou bem sossegada”, ressaltou.

Sobre onde busca inspiração para compor, ela revela sua fonte nela mesma e nas emoções humanas. “Eu me inspiro em pessoas e meus relacionamento com elas e em minhas emoções. E outras pessoas, outras músicas e outras letras. Eu acho que muitas vezes eu estou ouvindo uma música e e ela está ficando armazenada algum lugar no meu cérebro. Fazer shows, ir a lugares me inspira. Eu fico anotando, escrevendo letras no meu celular”, disse.

Para a popstar, o fim das barreiras musicais é o que está acontecendo de mais novo na música hoje. “Os gêneros musicais estão se misturando e acho isso muito bom. Hoje você tem o Spotify que facilita ir de uma música a outra muito rápido. As pessoas que fazem música também estão ouvindo mais música. Eles fazem uma colagem”, constata.

A cantora e guitarrista também contou durante a conversa sobre quem considera seus heróis musicais e surpreendeu. “Sade é uma grande heroína para mim, sou uma grande fã. Adoro sua voz e como pessoa, ela tem muita privacidade. Continua sendo uma grande artista popular, mas mantém a sua vida pessoal muito privada. Sade é massa. Eu amo Mariah Carey porque acho que ela tem a voz mais incrível, acho as músicas delas incríveis também. Essas são as mulheres do pop. Eu também amo The Cure, Portishead. Eu também gosto de heavy e rock como Queens of The Stone Age, Savages. Eu gosto realmente de muitos tipos de música”, afirmou.

Outro assunto abordado foi o momento da vida em que percebeu que música se tornaria profissão. “Quando eu era criança eu adorava desenhar, era mais ligada no visual que na música. Quando eu tinha tipo 14 anos eu me apaixonei por música, comecei a ir a shows, gostar de bandas. Quando eu tinha 15 eu pensei, por que não? Muita gente canta quando é criança, às vezes em corais, para mim foi uma coisa mais tardia. Eu não sabia que eu me tornaria artista, eu apenas queria fazer música e acabou sendo uma forma de expressar minhas emoções. Foi isso que me colocou dentro da música”, revelou.

The xx no Lollapalooza 2017
CamilaCara-MRossi/Divulgação The xx no Lollapalooza 2017

Ela apontou ainda que o sucesso não veio de uma hora para outra: “Aconteceu gradualmente. Comecei a tocar aos 16, 17, em Londres. A gente fechou com a The Young Turks, um selo musical e de gerenciamento musical, que nos encomendou um álbum. Foi um sonho, tocar música. Provavelmente aos 18, quando o álbum foi lançado, foi um grande momento”.

Romy foi cirúrgica ao falar sobre o que considera tipicamente inglês na música do The xx. “Acho que existe uma certa qualidade de ser reservado na nossa música. Você não percebe o que é inglês ou não até comparar com outros lugares do mundo. Eu acho que somos bastante contidos e nossa música gosta de deixar espaços e quietude.”

Modelo de sucesso para muitos gays que enfrentam preconceito e a violência, ela ficou chocada ao saber pela reportagem que o Brasil é o país que mais mata gays no mundo quando perguntamos se a sua declaração sobre o casamento era algo mais romântico ou política: “Para mim, definitivamente é uma declaração romântica. Eu não sou uma pessoa enormemente politizada. Mas quando eu acho que as coisas estão erradas, eu falo com certeza. Mas parte muito meu coração saber disso. Mortes de pessoas gays? É isso? Eu acho que em alguns aspectos o mundo está avançando em termos de ser mais aberto em relação aos LGBT ou das pessoas em geral. Ser gay em uma banda me faz mais confortável para falar disso. Talvez porque eu esteja mais velha e confiante. Mas tudo que eu quero dizer para as pessoas é que percebam que isso não é uma grande questão, isso é parte da sua vida, é normal. Quero que as pessoas acreditem que não é errado, é natural, é OK”.

Uma última pergunta tenta decifrar a esfinge: que música composta por ela mais revela sobre seu verdadeiro eu. “Acho que é a música Test Me, do novo álbum. É uma música muito pessoal sobre o último relacionamento do Oliver. É uma música muito honesta e foi algo que fortaleceu a nossa amizade. Fiquei muito feliz quando saiu”, finalizou Romy. O chá dela chega. Me despeço meio sem jeito e saio tentando evitar olhar para trás. Que mulherão!

Anúncios

Por que Billie Holiday, a Lady Day, é a cantora mais influente do jazz?

Quando Billie Holiday cantava sobre abandono, violência, drogas e racismo, temas presentes em muitas das músicas que eternizou, ela não estava brincando. Nascida Eleanora Fagan em 7 de abril de 1915 na Filadélfia, ela era filha de dois adolescentes, a mãe tinha 13 e o pai, 15. Criada pela tia, ela sofreu violência do marido, foi viciada em álcool e heroína e morreu aos 44 anos, em 1959, no hospital, sob prisão domiciliar.

Lady Day, apelido dado pelo saxofonista Lester Young, relevou-se a alcunha perfeita. Basta parar para pensar em quantas vezes ela iluminou nossos dias e não haverá nenhuma dúvida. Veja na galeria alguns motivos que fazem dela a cantora mais influente do jazz.

Por 15 minutos de fama ou diversão. Conheça fantasiados da Comic-Con de San Diego

Com público superior a 130 mil pessoas durante todo evento, a Comic-Con pode parecer a estação da Sé às 18h. A diferença é que está todo mundo está absurdamente feliz, em meio à Disneylândia dos nerds e geeks, e no clima hospitaleiro da Califórnia.

Comprar é o de menos, os que vão fantasiados querem mesmo são seus 15 minutos de fama, tal qual Andy Warhol (1928-1987) alardeou que um dia todos nós teríamos direto. Eles não se importam com as abordagens de estranhos para fotos a cada segundo.

Nosso primeiro encontro foi com Powdered Toast Man. “É divertido”, respondeu David Ross, um tanto lacônico, à pergunta sobre o motivo que o levou a escolher o personagem. A brincadeira saiu barata, US$ 10. Talvez a marra do nosso amigo fosse o frio, já que seu corpitcho ficava bastante exposto.

Em seguida, foi a vez de Venom. “É uma coisa muito particular, você tem tudo que se relaciona com quadrinhos aqui”, justificou Mikayla Villavert, em relação ao melhor da feira, antes de adicionar que aqui ninguém tem preguiça de se produzir.

Que o diga James Laborde, o Monstro do Pântano, Swamp Thing, em inglês. A fantasia do cara até piscava os olhos. Quanto ele gastou? “Não quero pensar sobre isso”.

Depois do encontro com a criatura, que falava com dificuldade por trás de tantos penduricalhos, um Capitão América negro chamou nossa atenção.

Numa banca dedicada a quadrinhos antigos, ele havia acabado de tirar suas luvas para poder folhear uma revista. Dwayne Boydtem um vozeirão grave, digno de super-herói. O cara foi esperto, pegou a fantasia em uma loja especializada e gastou US$ 37. Ele elogiou a excentricidade da galera que frequenta a feira.

Se o Capitão América tinha sossego, quatro garotas que eram uma espécie de versão nerd do Bonde das Maravilhas, eram abordadas insistentemente. Só que era isso mesmo que elas queriam. “Essa é a melhor parte, faz a gente se sentir famosa. Nós sabíamos que se viéssemos com roupas normais ninguém iria ligar”, confessou Elisabeth Krieger, que estava com as amigues Hanna, Jessica e Tory, todas de Orlando.

Já com passos vacilantes em meio à multidão, reconhecemos um Super-Homem com uma bandeira dos Estados Unidos que havia sido fotografado pela agência de fotos Getty Images um dia antes, na noite que antecede a abertura oficial. O mexicano Bersain Gutierrez nem sabia e a reportagem do Virgula Top of The Pops contou a boa nova. A ficha caiu e ele entendeu por que tanta gente o estava abordando.

Talvez por estar sentindo o gostinho da fama, ele discursou. “O melhor da Comic-Con é que ela abraça o geek dentro de nós, a criança dentro de nós. Nós temos carreiras, nos estressamos no dia a dia, mas todo mundo quer acreditar em heróis, quer acreditar em algo bom, que as coisas podem mudar com um piscar de olhos. Aqui você não é mais você, é um super-herói por cinco dias”, afirmou.

Para nós brasileiros, no entanto, a coisa aqui está mais para Carnaval. Ou você duvida que o Monstro do Pântano faria sucesso em cima de um carro alegórico?

The Cure faz tanto sentido hoje quanto nos anos 80 e 90

Se os meninos não choram, os quarentões não perderam a oportunidade de deixar uma lágrima cair durante o show do Cure neste sábado (6), em São Paulo. Cumprindo o prometido de um show de mais de três horas e ainda adicionando mais 20 minutos, Robert Smith conduziu a Arena Anhembi com músicas que pareciam tocar fundo nos fãs curemaníacos.

A cada introdução, alguém de braços abertos, expressão incrédula, transparecia que aquela era “sua música”. Mas a banda não estava disposta a amolecer para os não-iniciados e alternaram hits e lados Bs. Com versões quase sempre próximas das originais, elas ainda assim não fariam mais sentido nos anos 80 ou 90.

Com a voz de Robert intacta, as linhas de baixo bem construídas de Simon Gallup e bateria pulsando como máquina, a cama estava posta para sintetizadores e guitarras ditarem o clima. Um tipo de música que faz você pensar, por que eu estou tão triste? Uma experiência que mexe com memórias e sentimentos que pareciam desintegrados, mas se revelam vivíssimos.

Diante de 30 mil pessoas, o Cure mostrou que soa atual a ponto de imaginarmos que seus integrantes devem rir muito quando alguma revista de moda diz que o gótico voltou a ser tendência ou deixou de ser. O mesmo quando surge uma bandinha pintada como salvação do rock por 15 dias.

E tome Lovesong, In Between Days, Just Like Heaven, Pictures of You, Fascination Street, A Forest. Aquele cara que ensinou inglês para tantos de nós, que inspirou acordes de guitarras e violões desafinados, que a gente tentou fazer o cabelo igual sem o menor sucesso, está ali como um Dorian Gray, personagem de Oscar Wilde, às avessas. Ele envelheceu, mas sua obra fez tanto sentido ontem quanto fará amanhã.

Ele nos ensinou que o mundo é um lugar difícil, que o amor é duro, mas ele sempre pode ser uma redenção, pode rimar com humor, pode ter leveza, mesmo nos abismos. Como sua camisa preta, mas brilhante, como seus colares e pulseiras de plástico vagabundos.

Robert é um palhaço triste, mas ele fala por nós. Quando ela faz uma dancinha desajeitada, não há como deixar de admirá-lo pela sua humanidade, pela sua coragem de ser diferente. O Cure toca em e por nós. Por que há injustiça – em uma de suas guitarras está escrito “Citzens not subjects” (cidadãos, não súditos), em seu violão elétrico há escudos de seleções da Nigéria e da Colômbia. Robert ama as minorias, Robert nos representa.

Sob o céu avermelhado da cidade pós-industrial, as nuvens se abriram e desde o começo do show, três estrelas podiam ser vistas, uma delas exatamente onde estava o vocalista. Com o avançar das horas, elas sumiram. Ainda assim, estavam ali. Com o Cure é a mesma coisa. Para encontrá-lo é preciso ir para dentro, uma jornada que pode ser mais longa que uma viagem interplanetária.

Perto do fim do show, já no terceiro bis, Robert não quer ninguém indo embora frustrado. E a banda enfileira The Lovecats, The Caterpillar, Close do Me, Hot Hot Hot!!!, Let´s Go to Bed, Why Can´t I Be You, Boys Don´t Cry, 10:15 Saturday Night, Killing An Arab. “Eu vejo vocês logo”, ele diz no final. Nós tomamos como uma promessa, esperar mais 17 anos não parece justo. Este mundo tão errado pode não ter cura. Mas nós temos.

Reinaldo Moraes: ‘Quando falo em surrealismo urbano, tento só criar um conceito-piada’

 

Image

Reinaldo Moraes estreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz. Em 1985, publicou a novela Abacaxi. Os dois livros foram republicados em 2011 num volume único pela Companhia das Letras. Depois de 17 anos sem publicar nada, publicou um romance de aventuras, A órbita dos caracóis, pela Companhia das Letras. Daí, vieram: Os livros seguintes fora: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem editada pela National Geographic-Abril, de 2004, com fotos de Roberto Linsker), Umidade (contos, Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil, Companhia das Letras, 2007) e Pornopopéia (romance, Objetiva, 2009). Publicou nos últimos anos dois contos longos nas revistas Pìauí (“Prevaricações primevas) e Granta (“O apocalipse segundo pirandello”).

Gostaria que falasse um pouco sobre o surrealismo urbano, especificamente nos textos da juliana, na sua própria obra e de maneira genérica…
Quando falo em “surrealismo urbano” sobre os textos da Juliana Frank tento só criar um conceito-piada pra designar um conjunto de transgressões morais e espaço-temporais daquelas narrativas, especialmente na “Quenga de plástico,” primeira novela quase romance da moça. O urbano da expressão vai por conta das referências à “Augusta em chamas,” como ela diz no livro, e seus entornos alucinatórios. A escrita em si também segue as antirregras extraídas muito mais da poesia que da prosa gramatical. Nisso ela pode ser considerada filha dileta do “Quampérius”, noveleta oswaldiana de 1977 do Chacal, grande poeta carioca e diletante universal. Na primeira página do “Quenga” você já vê isso. Logo na primeira linha a personagem informa que acaba de ser estuprada e se define como “ex-atriz pornõ?, atual dançarina e futura professora de balé”, para logo a seguir a vermos exercendo a mais velha profissão do mundo num inferninho do baixo Augusta na companhia de sua melhor amiga, uma puta anã. Delícia.

Acredita que seja uma tendência?
, em vários graus de porralouquice e densidade literária. Há os grandes prosadores dessa tendência, como o Chacal, que eu já citei, e , antes dele, o genial Campos de Carvalho, de “A lua vem da Ásia” e “O púcaro búlgaro”. Me parece que a Juliana funde esses dois grandes autores militante da pós ou da trans ou para-realidade, mesmo que não os tenha lido.

Trata-se de alguma reação ao mundo atual?
Não. As desigualdades, desequilíbrios e injustiças de todo tipo de que é feito o mundo atual compõem um cenário muito mais demencial do que qualquer surrealismo urbano poderia aspirar. Acho que sempre foi mais ou menos assim. O Raul Pompéia tem aquela famosa frase do primeiro parágrafo de “O Ateneu”: “Bem considerando, a atualidade é a mesma em todas as datas.” E a atualidade é bomba explodindo na cozinha da sua casa e matando toda a sua família no meio do café da manhã, como na Síria, e é os traficantes mexicanos pendurando as cabeças cortadas de seus rivais debaixo de uma ponte, e é a Europa querendo resolver sua crise econômica oferecendo desemprego, despejo e gás lacrimogênio à população e é os fundamentalistas islâmicos apedrejando mulheres alguns anos depois de lhes ter extraído o clitóris a faca. Sou mais a “Quenga de Plástico” dizendo em toda a sua escrachada candura: “O cu ardia mais do que sol ao meio-dia.”

Já ouviu falar em new weird, uma nova corrente inglesa?
Nunca ouvi falar de new weird. Faço parte da corrente old freak, com sede na casa da mãe joana.

Juliana Frank: ‘Precisamos dos belos heróis, dos belos santos, dos escapistas perfeitos’

 Image

Juliana Frank, 27 anos, nasceu em São Paulo e vive no Rio de Janeiro. Autora de “Quenga de Plástico” (7Letras). Seu primeiro romance, “Meu Coração de Pedra-Pomes”, sairá pela Companhia das Letras em 2013. É roteirista, adaptou “Pornopopeia”, de Reinaldo Moraes, para o cinema. As filmagens estão previstas para o segundo semestre do ano que vem. “Não tenho isso de só escrever de cabelo molhado ou só ao lado de um macaco albino, ou só de bobs pela manhã. Meu único ritual é não forçar, não arrancar a coisa do limbo. Espero as ideias se formarem no tempo delas, que nem sempre é o tempo cronológico.” 

Que autores crê que façam a ponte com o surrealismo de maneira bem feita hoje?
Qualquer amalucado bem letrado é capaz de produzir um texto com o pé acenando tchau nas orelhas. O surrealismo foi tímido no Brasil. Ainda é tímido. De repente você se depara com anarquias literárias, mas é raro. Também tem muita gente que escreve um tudo pode em que tudo acontece por acontecer e não há razão nessa loucura. É preciso cuidado. Eu gosto da Juliana Amato, mas não sei bem se ela se encaixa nisso. Têm o Rafael Sperling, e sua prosa molóide agressiva.

Quais foram as maiores contribuições que o surrealismo já deu para a literatura?
Todas. Ela livrou a literatura da depressão,da seriedade, da chatice rançosa e amarela da seriedade. Precisamos dos belos heróis, dos belos santos, dos escapistas perfeitos.

É possível um surrealismo brasileiro?
O surrealismo é sempre possível, pelo menos foi o que garantiu minha terapeuta.
O surrealismo é um produto da psicanálise ou já existia antes?
Ali em 1920, com Breton, Éluard. Ele tem na fonte o inconsciente. Mas temos Lautreamont, claro. E Campos de Carvalho, um louco genial, no Brasil.

Esta tendência surreal é uma reação ao mundo de hoje?
O mundo sempre será o mundo com suas organizações, colheres de metal, filhos, escolas, sanduíches, guerras, sangue pisado, coração lascado, O surrealismo é uma espécie de salvação para o drama previsível, comum, geral, boçal.

Do que se trata seu romance e qual é a previsão de ser lançado?
Não me considero surrealista. Apenas faço uma prosa diletantã.
Meu Coração de Pedra-Pomes é um livro que acompanha minha personagem, Lawanda, por sua vidinha de adolescente bem aventurada. Não gosto do surreal pelo surreal, então tentei dar sentido aquela loucura toda. Inclusive, ela é uma louca que não perdeu a razão. Vai sair pela Companhia das Letras, ainda não perguntei quando.

Seu processo de criação é natural ou você tem rituais?
Não tenho isso de só escrever de cabelo molhado ou só ao lado de um macaco albino, ou só de bobs pela manhã. Meu único ritual é não forçar, não arrancar a coisa do limbo. Espero as idéias se formarem no tempo delas, que nem sempre é o tempo cronológico. Misturo e agito antes de escrever.

Rafael Sperling: ‘Oswald de Andrade já havia dito que o Brasil possuia uma língua surrealista, o tupi’

Image

Crédito da foto: J. Egberto

Rafael Sperling nasceu em 1985, no Rio de Janeiro. Compositor e produtor musical; estuda Composição na UFRJ, além de escrever no blog http://www.somesentido.blogspot.com. Já teve contos publicados em sites como Cronópios e Musa Rara; nas revistas Minotauro e Arraia PajéurBR, e no Jornal Rascunho. Em 2011 lançou seu primeiro livro, Festa na usina nuclear, e participa da antologia que está para sair em dezembro “É assim que o mundo acaba”, ambos pela Ed. Oito e Meio.

É possível um surrealismo brasileiro?
Certamente; embora não nos moldes do surrealismo do inicio do século passado, mas um surrealismo que se relacione o momento em que vivemos. Temos exemplos de surrealistas “genuínos” por aqui, como a escultora Maria Martins ou escritor Campos de Carvalho, mas na verdade o surrealismo, no Brasil, nunca se concretizou como movimento. O que tivemos em geral foram artistas com momentos surrealistas, obras com “ingredientes” surrealistas. Mesmo com a vinda de Benjamin Péret para o Brasil no final da década de 20, o surrealismo acabou não se tornando tendência, uma vez que a antropofagia era o movimento artístico dominante. Um dos motivos disso ter acontecido pode ser, como é dito em um artigo de Jorge Schwartz, que o movimento surrealista era visto como “pré-antropofágico”, e o movimento antropofágico como o último de todos os “ismos”. Além disso, Oswald de Andrade já havia dito que o Brasil já possuia uma língua surrealista, o tupi. Portanto, creio que a possibilidade de um surrealismo brasileiro seja possível não pela presença de uma tradição histórica no país, mas por circunstâncias diversas atuais, como por exemplo a disseminação de uma cultura do nonsense na internet, que permeia videos, “memes” e por aí vai.

O surrealismo é um produto da psicanálise ou já existia antes?
Como movimento, o surrealismo se concretizou no inicio do século XX. Mas podemos, sim, identificar elementos pré-surrealistas em artistas de épocas anteriores, como, por exemplo, em pinturas de Hieronymus Bosch ou gravuras Giovanni Battista Braccelli

Esta tendência surreal é uma reação ao mundo de hoje?
Não seria uma reação, no sentido de estar indo contra algo; seria justamente o oposto, uma constatação da sensação de como é viver hoje, uma tentativa de exprimir isso. Não acho que hoje em dia faça sentido escrever algo que se aproxime de uma estética demasiado realista. Creio que o mundo em que vivemos é estranho e absurdo demais a ponto de uma narrativa realista soar incongruente.

Você tem algum lançamento em vista, do que se trata?
Estou fazendo dois livros, um de contos que está quase pronto, “O juiz que queria ser artista plástico”, e um romance, “Geralmente eu fico em casa”, que trata dos acontecimentos diários surreais e nonsense de um homem, seu cachorro e sua mulher.

Você tem rituais para criar ou é uma coisa natural? 
Não sei se posso chamar isso de ritual, mas gosto de escrever de madrugada, e especialmente quando estou começando a ficar com um pouco de sono. Esse estado mental levemente alterado pelo sono faz com que ideias surjam.

Que outros autores atuais fazem bem esta ponte com o surrealismo na sua opinião?
Realmente, não saberia indicar muitos nomes. Dos que conheço e gosto, aqui no Brasil temos a Veronica Stigger; nos EUA, Tao Lin e Bradley Sands.