Reinaldo Moraes: ‘Quando falo em surrealismo urbano, tento só criar um conceito-piada’

2 jan

 

Image

Reinaldo Moraes estreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz. Em 1985, publicou a novela Abacaxi. Os dois livros foram republicados em 2011 num volume único pela Companhia das Letras. Depois de 17 anos sem publicar nada, publicou um romance de aventuras, A órbita dos caracóis, pela Companhia das Letras. Daí, vieram: Os livros seguintes fora: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem editada pela National Geographic-Abril, de 2004, com fotos de Roberto Linsker), Umidade (contos, Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil, Companhia das Letras, 2007) e Pornopopéia (romance, Objetiva, 2009). Publicou nos últimos anos dois contos longos nas revistas Pìauí (“Prevaricações primevas) e Granta (“O apocalipse segundo pirandello”).

Gostaria que falasse um pouco sobre o surrealismo urbano, especificamente nos textos da juliana, na sua própria obra e de maneira genérica…
Quando falo em “surrealismo urbano” sobre os textos da Juliana Frank tento só criar um conceito-piada pra designar um conjunto de transgressões morais e espaço-temporais daquelas narrativas, especialmente na “Quenga de plástico,” primeira novela quase romance da moça. O urbano da expressão vai por conta das referências à “Augusta em chamas,” como ela diz no livro, e seus entornos alucinatórios. A escrita em si também segue as antirregras extraídas muito mais da poesia que da prosa gramatical. Nisso ela pode ser considerada filha dileta do “Quampérius”, noveleta oswaldiana de 1977 do Chacal, grande poeta carioca e diletante universal. Na primeira página do “Quenga” você já vê isso. Logo na primeira linha a personagem informa que acaba de ser estuprada e se define como “ex-atriz pornõ?, atual dançarina e futura professora de balé”, para logo a seguir a vermos exercendo a mais velha profissão do mundo num inferninho do baixo Augusta na companhia de sua melhor amiga, uma puta anã. Delícia.

Acredita que seja uma tendência?
, em vários graus de porralouquice e densidade literária. Há os grandes prosadores dessa tendência, como o Chacal, que eu já citei, e , antes dele, o genial Campos de Carvalho, de “A lua vem da Ásia” e “O púcaro búlgaro”. Me parece que a Juliana funde esses dois grandes autores militante da pós ou da trans ou para-realidade, mesmo que não os tenha lido.

Trata-se de alguma reação ao mundo atual?
Não. As desigualdades, desequilíbrios e injustiças de todo tipo de que é feito o mundo atual compõem um cenário muito mais demencial do que qualquer surrealismo urbano poderia aspirar. Acho que sempre foi mais ou menos assim. O Raul Pompéia tem aquela famosa frase do primeiro parágrafo de “O Ateneu”: “Bem considerando, a atualidade é a mesma em todas as datas.” E a atualidade é bomba explodindo na cozinha da sua casa e matando toda a sua família no meio do café da manhã, como na Síria, e é os traficantes mexicanos pendurando as cabeças cortadas de seus rivais debaixo de uma ponte, e é a Europa querendo resolver sua crise econômica oferecendo desemprego, despejo e gás lacrimogênio à população e é os fundamentalistas islâmicos apedrejando mulheres alguns anos depois de lhes ter extraído o clitóris a faca. Sou mais a “Quenga de Plástico” dizendo em toda a sua escrachada candura: “O cu ardia mais do que sol ao meio-dia.”

Já ouviu falar em new weird, uma nova corrente inglesa?
Nunca ouvi falar de new weird. Faço parte da corrente old freak, com sede na casa da mãe joana.

Juliana Frank: ‘Precisamos dos belos heróis, dos belos santos, dos escapistas perfeitos’

2 jan

 Image

Juliana Frank, 27 anos, nasceu em São Paulo e vive no Rio de Janeiro. Autora de “Quenga de Plástico” (7Letras). Seu primeiro romance, “Meu Coração de Pedra-Pomes”, sairá pela Companhia das Letras em 2013. É roteirista, adaptou “Pornopopeia”, de Reinaldo Moraes, para o cinema. As filmagens estão previstas para o segundo semestre do ano que vem. “Não tenho isso de só escrever de cabelo molhado ou só ao lado de um macaco albino, ou só de bobs pela manhã. Meu único ritual é não forçar, não arrancar a coisa do limbo. Espero as ideias se formarem no tempo delas, que nem sempre é o tempo cronológico.” 

Que autores crê que façam a ponte com o surrealismo de maneira bem feita hoje?
Qualquer amalucado bem letrado é capaz de produzir um texto com o pé acenando tchau nas orelhas. O surrealismo foi tímido no Brasil. Ainda é tímido. De repente você se depara com anarquias literárias, mas é raro. Também tem muita gente que escreve um tudo pode em que tudo acontece por acontecer e não há razão nessa loucura. É preciso cuidado. Eu gosto da Juliana Amato, mas não sei bem se ela se encaixa nisso. Têm o Rafael Sperling, e sua prosa molóide agressiva.

Quais foram as maiores contribuições que o surrealismo já deu para a literatura?
Todas. Ela livrou a literatura da depressão,da seriedade, da chatice rançosa e amarela da seriedade. Precisamos dos belos heróis, dos belos santos, dos escapistas perfeitos.

É possível um surrealismo brasileiro?
O surrealismo é sempre possível, pelo menos foi o que garantiu minha terapeuta.
O surrealismo é um produto da psicanálise ou já existia antes?
Ali em 1920, com Breton, Éluard. Ele tem na fonte o inconsciente. Mas temos Lautreamont, claro. E Campos de Carvalho, um louco genial, no Brasil.

Esta tendência surreal é uma reação ao mundo de hoje?
O mundo sempre será o mundo com suas organizações, colheres de metal, filhos, escolas, sanduíches, guerras, sangue pisado, coração lascado, O surrealismo é uma espécie de salvação para o drama previsível, comum, geral, boçal.

Do que se trata seu romance e qual é a previsão de ser lançado?
Não me considero surrealista. Apenas faço uma prosa diletantã.
Meu Coração de Pedra-Pomes é um livro que acompanha minha personagem, Lawanda, por sua vidinha de adolescente bem aventurada. Não gosto do surreal pelo surreal, então tentei dar sentido aquela loucura toda. Inclusive, ela é uma louca que não perdeu a razão. Vai sair pela Companhia das Letras, ainda não perguntei quando.

Seu processo de criação é natural ou você tem rituais?
Não tenho isso de só escrever de cabelo molhado ou só ao lado de um macaco albino, ou só de bobs pela manhã. Meu único ritual é não forçar, não arrancar a coisa do limbo. Espero as idéias se formarem no tempo delas, que nem sempre é o tempo cronológico. Misturo e agito antes de escrever.

Rafael Sperling: ‘Oswald de Andrade já havia dito que o Brasil possuia uma língua surrealista, o tupi’

2 jan

Image

Crédito da foto: J. Egberto

Rafael Sperling nasceu em 1985, no Rio de Janeiro. Compositor e produtor musical; estuda Composição na UFRJ, além de escrever no blog http://www.somesentido.blogspot.com. Já teve contos publicados em sites como Cronópios e Musa Rara; nas revistas Minotauro e Arraia PajéurBR, e no Jornal Rascunho. Em 2011 lançou seu primeiro livro, Festa na usina nuclear, e participa da antologia que está para sair em dezembro “É assim que o mundo acaba”, ambos pela Ed. Oito e Meio.

É possível um surrealismo brasileiro?
Certamente; embora não nos moldes do surrealismo do inicio do século passado, mas um surrealismo que se relacione o momento em que vivemos. Temos exemplos de surrealistas “genuínos” por aqui, como a escultora Maria Martins ou escritor Campos de Carvalho, mas na verdade o surrealismo, no Brasil, nunca se concretizou como movimento. O que tivemos em geral foram artistas com momentos surrealistas, obras com “ingredientes” surrealistas. Mesmo com a vinda de Benjamin Péret para o Brasil no final da década de 20, o surrealismo acabou não se tornando tendência, uma vez que a antropofagia era o movimento artístico dominante. Um dos motivos disso ter acontecido pode ser, como é dito em um artigo de Jorge Schwartz, que o movimento surrealista era visto como “pré-antropofágico”, e o movimento antropofágico como o último de todos os “ismos”. Além disso, Oswald de Andrade já havia dito que o Brasil já possuia uma língua surrealista, o tupi. Portanto, creio que a possibilidade de um surrealismo brasileiro seja possível não pela presença de uma tradição histórica no país, mas por circunstâncias diversas atuais, como por exemplo a disseminação de uma cultura do nonsense na internet, que permeia videos, “memes” e por aí vai.

O surrealismo é um produto da psicanálise ou já existia antes?
Como movimento, o surrealismo se concretizou no inicio do século XX. Mas podemos, sim, identificar elementos pré-surrealistas em artistas de épocas anteriores, como, por exemplo, em pinturas de Hieronymus Bosch ou gravuras Giovanni Battista Braccelli

Esta tendência surreal é uma reação ao mundo de hoje?
Não seria uma reação, no sentido de estar indo contra algo; seria justamente o oposto, uma constatação da sensação de como é viver hoje, uma tentativa de exprimir isso. Não acho que hoje em dia faça sentido escrever algo que se aproxime de uma estética demasiado realista. Creio que o mundo em que vivemos é estranho e absurdo demais a ponto de uma narrativa realista soar incongruente.

Você tem algum lançamento em vista, do que se trata?
Estou fazendo dois livros, um de contos que está quase pronto, “O juiz que queria ser artista plástico”, e um romance, “Geralmente eu fico em casa”, que trata dos acontecimentos diários surreais e nonsense de um homem, seu cachorro e sua mulher.

Você tem rituais para criar ou é uma coisa natural? 
Não sei se posso chamar isso de ritual, mas gosto de escrever de madrugada, e especialmente quando estou começando a ficar com um pouco de sono. Esse estado mental levemente alterado pelo sono faz com que ideias surjam.

Que outros autores atuais fazem bem esta ponte com o surrealismo na sua opinião?
Realmente, não saberia indicar muitos nomes. Dos que conheço e gosto, aqui no Brasil temos a Veronica Stigger; nos EUA, Tao Lin e Bradley Sands.

R. D. Castiglioni: Qual é o escritor que, hoje, não é de alguma forma devedor do surrealismo?

2 jan

Image

R. D. Castiglioni, professor – Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Grupo de pesquisa em que atua: O surrealismo e seus diálogos com a modernidade: aproximações interdisciplinares – SURRDIAL/GpesqCNPq-UFRGS.0381 – UFRGS (líder)

Linhas de pesquisa em que atua, Literatura, imaginário e história; Teorias literárias e interdisciplinaridade

“Inicialmente cabe esclarecer que os surrealistas repudiavam a ideia de que o movimento fosse considerado uma escola literária ou artística, porque o surrealismo não se define a partir de considerações técnicas, temáticas, estéticas. É um movimento com posições ideológicas, um estilo de pensar, um método de vida, uma concepção de mundo, uma ideologia, um estado de espírito com expressões artísticas (na pintura, na literatura, etc.) ou não. Esse estado de espírito é definido como uma tentativa de busca dos valores essenciais e permanentes do ser humano, uma procura de valores tendo a liberdade como foco, e o amor e a poesia como meio.
O escritor argentino Aldo Pellegrini disse que o surrealismo se propõe “à tarefa ambiciosa de libertar o homem”. Inclusive, na Declaração de 27 de janeiro de 1925 os surrealistas disseram que não tinham nada a ver com a literatura, mas que eram, “em caso de necessidade, capazes de se servir dela, como todos”. Disseram ainda, que o surrealismo não era um “mecanismo de expressão novo ou mais fácil, nem uma metafísica da poesia.”
Nesse sentido, o professor Claude Courtot no livro Surrealismo Novo Mundo fez um balanço da herança do movimento surrealista que é, sem dúvida, o movimento mais importante do século XX, comparável à posição que ocupava o romantismo no século XIX. Assim como o romantismo, o surrealismo foi além de seu limite histórico e continua exercendo influência mesmo após o seu fim oficial. Também como o romantismo, não se restringe à literatura, chegando a influenciar todos os escritores do século, inclusive àqueles que se posicionaram e se posicionam contra o movimento. O surrealismo trouxe uma nova forma de ver e sentir o mundo, modificando os costumes e influenciando todas as áreas da cultura. É só pensar, por exemplo, na influência de Salvador Dalí, Pablo Picasso, Joan Miró e René Magritte nas artes plásticas; no cinema, em Luis Buñuel e Salvador Dalí; na fotografia, em Man Ray.
O surrealismo está na publicidade, na moda e, como bem lembra Courtot, isso de estar “na boca do povo”, essa vulgarização, talvez não tenha sido positiva na medida em que hoje qualquer coisa irracional, absurda, louca, alucinada, incompreensível, insensata é lamentavelmente considerada “surrealista”. Então, pode-se concluir e entender que o surrealismo teve influência em vários aspectos da vida.
E já faz bastante tempo que as principais descobertas e técnicas do surrealismo são de domínio público, passando a ser usadas por artistas e escritores que não se definem como surrealistas, não partilham ou partilham pouco do estado de espírito surrealista, mas que não deixam por isso de dialogar parcialmente, de alguma forma, com o surrealismo ao recorrer às técnicas, recursos, procedimentos, jogos, etc., descobertos pelo surrealismo. De forma que não faria muito sentido apresentar, a este respeito, uma lista de escritores, necessariamente falha por ser parcial, pois qual é o escritor que, hoje, não é de alguma forma devedor do surrealismo?
Quanto aos escritores especificamente surrealistas, eles são muito numerosos no que diz respeito à poesia. Podemos relembrar alguns nomes históricos que marcaram a paisagem poética da América Latina: o argentino Aldo Pellegrini, o pioneiro do surrealismo fora da França, o antilhano da Martinica Aimé Césaire, o mexicano Octavio Paz, o argentino Enrique Molina, o peruano Emilio Adolfo Westphalen e os chilenos Braulio Arenas e Enrique Gomez-Correa.
Fora da América Latina, não se pode deixar de mencionar os nomes dos franceses Michel Leiris, André Pierre de Mandiargues, Julien Gracq e Claude Courtot. Ou na Espanha, aquele magnífico escritor (poeta e romancista) e também artista plástico: Eugenio Granell.
Em Portugal, especial destaque ao genial poeta e artista plástico Mário Cesariny que disse: “Pode-se ser surrealista sem ter lido Breton. Pode-se ler Breton e não ser surrealista. Pode-se ser surrealista e não se ser, realmente, mais nada. Pode-se não ser surrealista e prestar-se com isso excelente serviço a todos e ao surrealismo em especial.”

Augusto Guimaraens Cavalcanti fala sobre surrealismo

2 jan

ImageAugusto Guimaraens Cavalcanti publicou “Poemas para se ler ao meio-dia” (2006, 7Letras), “AMORAMERICA” [Os sete novos] (2008, 7Letras), “Os tigres cravaram as garras no horizonte” (2010, Ed.Circuito); e o romance “Fui à Bulgária procurar por Campos de Carvalho” (2012, 7Letras). Já teve poemas publicados em antologias na Argentina, no México, na Bulgária & na antologia Enter sobre poetas da geração 00 (org. Heloisa Buarque de Hollanda). 28 anos e prepara agora seu próximo livro de poemas “Rua da Aridez”.

Penso que o mais importante quando falamos de surrealismo é não reduzi-lo à categoria leviana dos ismos ou cairmos na armadilha de considerar que qualquer tipo de pensamento incomum possa se encaixar em uma categoria precipitada nomeada de “surreal”. Gosto da leitura de Octavio Paz que entende o surrealismo como uma poética, uma forma de visão para além da prática literária; e por isso sempre atual. Fundamentalmente a poética surrealista busca reagrupar conceitos que a noção ocidental de progresso iluminista teria separado, como: razão e emoção, vida e arte, natureza e cultura, primitivo e moderno, profano e sagrado, real e sonho. Para além das além das puras preocupações estéticas, o surrealismo de André Breton possuía uma atitude ante a vida que buscava discutir a condição humana em seus contornos mais fundamentais. Esta característica utópica do surrealismo já não é mais tão marcada nos tempos pós-utópicos em que vivemos. No entanto, o surrealismo como poética continua a ser fundamental no sentido de interligar pensamento e ação, palavra e coisa através de uma consciência poética dos objetos de maneira a remontar num salto ao nascimento dos significantes: nem “vida artística” nem “arte vital”: regressar à origem da palavra, ao momento em que falar é sinônimo de criar. 

Os surrealistas têm como objeto a imagem poética, acreditam ser possível tocar com as mãos a ‘matéria-prima’ (no sentido alquímico) da linguagem. Existem práticas surrealistas como a busca da imprevisibilidade do acaso objetivo, a elaboração de um humor negro singular ou a escrita automática. Mas para mim os dois métodos surrealistas mais interessantes são a técnica da colagem e a busca de um estranhamento no cotidiano mais familiar. No composto alquímico da colagem as imagens conciliam opostos de uma maneira tensa que nunca se resolve: pela colisão de palavras raras, elementos plásticos são justapostos através de duas realidades aparentemente não conciliáveis, mas que ao se contraporem geram um terceiro significado reunido pelo olhar em estado “primitivo”, isto é, sem as amarras livrescas e enciclopédicas da memória. Já o estranhamento da rotina mais trivial é provocado por certo slogan antropológico que diz: “quanto mais banal, mais estranho”, isto é, quanto mais corriqueira parecer a realidade, mais ela deve conter mistérios inaudíveis. Quem usa muito bem deste artifício é Júlio Cortázar e Campos de Carvalho. Talvez Campos de Carvalho seja o único prosador surrealista brasileiro avant la lettre, exatamente por mostrar que o fantástico não precisa ser revelado por pirotecnias, efeitos de terror, etc; o ser humano por si só em seu microcotidiano já possui uma estranheza convulsiva de erupção onírica. Campos de Carvalho ainda evidencia que a viagem mental de localização poética é muito mais potente narrativamente do que a viagem geográfica; os GPS não costumam conseguir captar a imaginação (imagem em ação) de escritores como estes.
Quem se utiliza melhor da colagem na poesia é Murilo Mendes, chamado por Manuel Bandeira como “o conciliador de contrários”, e também Jorge de Lima. Roberto Piva e Claudio Willer também são dois poetas paulistanos que flertam com as associações livres imagéticas em seus textos, além de acreditarem que não existe artista experimental sem vida experimental. O antropófago Flavio de Carvalho também foi um entusiasta de práticas de investigação do inconsciente em diversos trabalhos. Nas artes plásticas temos Maria Martins, Ismael Nery e outros. Na realidade existiram surrealistas no Brasil, mas dificilmente surrealistas do Brasil. Exemplos não faltam de artistas/escritores que possuem uma relação com a poética surrealista que não é nem dogmática e nem de uma influência vertical. No entanto, o surrealismo ocupou uma espécie de entrelugar na literatura brasileira por ir contra os princípios de uma crítica oficial a mais adepta a um modernismo de cunho nacionalista ou racionalista. Não precisamos nem lembrar o sucesso imenso em nosso país da literatura regionalista e da poesia cerebral. Não seria supérfluo também lembrar que em seu momento heroico o concretismo queria até abolir a metáfora do poema, posição que depois foi revista e ainda bem, diga-se de passagem, porque Galáxias do Haroldo de Campos é um livro interessantíssimo. Também nunca é demais notar que somos o único país no mundo com o lema positivista escrito na bandeira, só que retiraram o “amor” presente no mote originário de Augusto Comte: “O Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim”.
No Brasil, também podemos levar em o fato de que o manifesto antropófago oswaldiano tem ecos do manifesto canibal de Francis Picabia, mas Oswald inverte a questão ao afirmar que os ameríndios já tinham em Pindorama a tal mentalidade pré-lógica que os surrealistas aspiravam. Já para Murilo Mendes existiria um “surrealismo à brasileira” que consideraria a vida em seus múltiplos movimentos e representações como muito mais surrealista que todos os surrealistas juntos. Foi inclusive o Murilo Mendes quem em conversa apresentou o tamanduá para André Breton que passou a considerar um animal surrealista por natureza, o tamanoir como Breton passou a chamar Murilo Mendes em francês. Os surrealistas combatiam os variados tipos de ufanismos e nacionalismos presentes em escritores como principalmente Anatole France.
Se eu for refletir sobre uma vertente atual de autores brasileiros que realizam uma ponte com o surrealismo atualmente iria pensar em um modismo que na minha visão assola a prosa brasileira que é o de um hiper-realismo temperado com a estetização da pobreza e da violência. Em poesia esta ânsia realista pode ser vista muito claramente na maioria de poetas novos que citam em excesso cidades estrangeiras, principalmente Paris, claro. Poderia pensar, então, que qualquer tipo de literatura que aposte mais na imaginação (potência imagética onírica) do que no relato exageradamente realista ou geográfico já poderia ser considerado como uma porta de entrada para a concepção surrealista da realidade. Na verdade os surrealistas não possuem a visão inocente de que apenas o sonho é real ou de que o real é sonho. A supra-realidade é buscada em um plano em que sonho e real sejam vasos comunicantes a formar reiteradamente uma terceira margem. Para mim ainda ecoa a afirmação de Octavio Paz em discurso na ONU (logo antes de ganhar o Prêmio Nobel em 1990), de que século XX será conhecido não como o século do marxismo, mas como o século do surrealismo. Para o filósofo mexicano foi o surrealismo que moldou a subjetividade moderna. De qualquer maneira isto não aconteceu com tanta substancialidade em nosso país, muito mais adepto do sincretismo cultural do que das contribuições surrealistas.
Se eu for citar então prosadores que dialogam com esta vertente menos marcadamente realista a que me referi, lembraria de livros que li lançados recentemente como O habitante irreal do Paulo Scott, Festa na usina nuclear do Rafael Sperling, Búfalo do Botika e A quenga de plástico de Juliana Frank. Quanto à dinastia literária que pertenço eu encaro como naturalidade e não penso nisso quando escrevo não. Tenho orgulho de aos 28 anos já ter lançado livros com orelhas, prefácios, posfácios e resenhas de escritores/artistas/críticos que admiro, como: Zé Celso Martinez, Heloisa Buarque de Hollanda, Alberto Pucheu, Claudio Willer, José Castello, Moacir Amâncio, Radamés Stepanovicinsky e outros. Mas óbvio que isso é sempre secundário, escreveria até se fosse o último bípede na terra, e não é da boca para fora não, realmente a pior tortura que poderia sofrer seria ter que parar de escrever. Também tem o fato de eu ter escrito sempre em verso livre por não me atrever a escrever metrificado, isso pelo fato do crítico José Guilherme Merquior ter dito que meu avô era o melhor sonetista da língua portuguesa. Mas meu avô (Alphonsus Guimaraens Filho) nunca me passou isso como um fardo não, pelo contrário, sempre conversava sobre futebol e literatura com a mesma candura, então discorrer sobre um sistema tático futebolístico ou sobre um escritor que gosto possui suas semelhanças. Antes só tinha lançado livros de poemas, mas agora que acabo de publicar meu primeiro romance vejo o quanto é mais laborioso o processo todo. Elaborar um fio narrativo foi algo que me deu muito prazer e é agora uma nova paixão junto com a poesia e o futebol, e como toda paixão não deixa de ter seu lado densamente irracional também.

Claudio Willer: ‘Se Freud havia dito que poetas, antes dele, conheciam o inconsciente, Breton foi o poeta que descobriu Freud’

2 jan

Image

CLAUDIO WILLER (São Paulo, 1940): poeta, ensaísta e tradutor. Vínculos com a criação literária mais rebelde e transgressiva, como aquela representada pelo surrealismo e geração beat. Doutor em Letras na USP, tese defendida em 2008 com o título “Um Obscuro Encanto: Gnose, Gnosticismo e a Poesia Moderna”.

Dois de seus muitos livros: “Um Obscuro Encanto: Gnose, Gnosticismo e Poesia”, ensaio, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2010; “Geração Beat”, ensaio, L&PM Pocket, Porto Alegre, 2009;

Que aspectos chamam sua atenção na poesia do Chiu Yi Chi?
No prefácio que escrevi para o livro de estréia dele, Naufrágios, havia caracterizado como representante de uma nova poesia brasileira. Elogiei a qualidade das imagens poéticas, surrealistas. Enxerguei escrita automática. Tratei da relação dessa poesia com o corpo; interpretei como tentativa de superação da contradição entre a palavra e o corpo, a esfera simbólica e o mundo das coisas. Mas acho que devemos prestar atenção nos desenvolvimentos subseqüentes de sua criação, na sua produção atual. Comparece simultaneamente como performer, executor de arte corporal; ensaísta e professor de filosofia; alguém que atua no campo das artes visuais. O que ele realiza nesses campos é sincrônico e convergente. É como se aspirasse a uma arte total, e a uma linguagem absoluta, verbal, musical, gestual ao mesmo tempo – a linguagem adâmica, de um tempo mítico e de um ser humano absoluto; ou em liberdade absoluta. Penso que vai longe, vai nos oferecer muita coisa boa por esse caminho.

Piva gostava do termo beat-surreal, ele ainda é um bom mote para o mundo atual?
Piva caracterizou, no filme Uma outra cidade, de Ugo Giorgetti e em outras ocasiões, seu livro de estréia, Paranóia, como “beat-surreal” – com razão, há transcriação de poemas de Ginsberg, Corso e outros beats, e se expressou através de uma imagética cerrada, de um fluxo delirante, tipicamente surreal. Tanto a beat quanto o surrealismo continuam presentes no restante da sua obra. Têm em comum – Piva, beat, surrealismo – serem expressões da rebelião romântica. A relação adensou-se. Nos livros subseqüentes, vê-se alusões a Michael McClure, à poesia de Jack Kerouac, ao ambientalismo de Gary Snyder, ao também beat-surreal Philip Lamantia etc. E as imagens poéticas ganharam em concisão e precisão – e em ousadia.
Quanto ao mundo atual, falta muito, mas muito, mesmo, para poder ser caracterizado como beat-surreal: para corresponder a esses ideais de libertação plena, de realização da imaginação, de ampliação da consciência… O que temos é a presença de mais poetas beat surreais, a meu ver constituindo-se em uma corrente importante da poesia contemporânea brasileira.

Que outros autores crê que façam a ponte com o surrealismo de maneira bem feita hoje?
Mais ou menos nosso contemporâneo, de Piva e meu, Afonso Henriques Neto, do Rio de Janeiro. reconhecido como poeta de alta qualidade; mas, como é discreto, fala-se pouco dele, sua obra não é comentada. Da ‘turma’, do grupo mais próximo, Roberto Bicelli, é claro – mais beat que surreal, talvez, em seu recente Ego Trip. Péricles Prade, de Santa Catarina – esotérico, imagética densa. Há mais. Celso de Alencar, seu recente Poemas perversos é uma beleza. Dos novos, Augusto Guimaraens Cavalcanti sintetiza bem a pegada beat e a imagética surreal. José Geraldo Neres, em Olhos de barro. Minhas apostas, autores que estão para lançar: Fabrício Clemente, Paulo Sposati Ortiz. Há mais ainda, várias mulheres ativíssimas. Enfim, o suficiente para caracterizar tendência.

Quais foram as maiores contribuições que o surrealismo já deu para a literatura?
Exceto aqui no Brasil, muito preso às heranças positivista e católica, mudou não só o modo de escrever, mas de perceber a realidade. Nadja de André Breton, por exemplo, uma das mais lidas dentre as narrativas do século 20. E tantas outras – um fluxo de imagens poéticas. Além da influência em artes visuais, cinema etc. E do estimulante debate sobre poesia e política, transgressão, ética e criação artística. Isso, entre outros tópicos.

O surrealismo é um produto da psicanálise ou já existia antes?
O que aproximou psicanálise e surrealismo, em primeiro lugar, foi o interesse pelos sintomas da histeria, pelo sonho e os delírios, vistos como fenômenos significativos; como linguagem; e, para os surrealistas, com valor poético. Breton, estudante de medicina, era estagiário em hospital psiquiátrico por volta de 1916; lá, teve contato com psicanálise. A formulação da sua poética e a descoberta de Freud coincidiram.
Deu uma base material à criação poética; uma resposta ao enigma da inspiração. O outro do acervo milenar de experiências místicas passou a ser um; a fonte da qual jorram palavras está na vida psíquica. Admitindo-se que a psicanálise freudiana foi equivalente à revolução de Copérnico e Galileu em astronomia, ao deslocarem respectivamente o homem do centro do universo e o “eu” consciente do centro da vida psíquica, então Breton associou a criação poética a uma revolução no conhecimento. E mais: a uma ideologia liberadora; à idéia da abolição da censura, da livre manifestação do reprimido, da realização do desejo. A conexão entre a criação e o sonho, foi reforçada.

Chiu Yi Chih: ‘O surrealismo deu a sua maior contribuição ao transgredir as regras da linguagem’

2 jan

Image

Que autores crê que façam a ponte com o surrealismo de maneira bem feita hoje?
Herberto Helder, Roberto Piva, Luis Serguilha, Cláudio Willer, José Geraldo Neres, Celso de Alencar e Afonso Henriques Neto.

Quais foram as maiores contribuições que o surrealismo já deu para a literatura?
O surrealismo, na minha opinião, deu a sua maior contribuição ao transgredir as regras da linguagem– já que toda linguagem é convencional e arbitrária – ultrapassando as imposições dos procedimentos lógicos da mente, criando obras que sintonizavam com a região do inconsciente (Freud), dos mitos e arquétipos (Jung), obras que buscavam a expressão dos desejos livres do homem que a sociedade e a moral de sua época reprimiam. O Primeiro Manifesto do Surrealismo escrito por André Breton professava essa liberdade de exprimir o “pensamento falado”, o fluxo das palavras que animavam a vida do inconsciente humano. É como se a criação artística fosse uma atividade que dispensassse o controle da razão e do gosto em proveito de uma liberação criadora capaz de atravessar as fronteiras do desconhecido. E isso implica numa tal atitude de liberdade que chega a ser um “escândalo” para determinadas mentes estreitas. Segundo Louis Aragon, o espírito surrealista é anárquico e vertiginoso, porque os surrealistas redescobriram o papel imenso da “imaginação” e “o emprego desregrado e passional do estupefaciente imagem”. 

É possível um surrealismo brasileiro?
O surrealismo é universal. Não é brasileiro, americano ou francês. É a faculdade da imaginação que habita a vida interior de cada homem. Encontramos aqui no Brasil, na poesia de Murilo Mendes e Jorge de Lima, esse exercício deliberado da imaginação em sua imensa riqueza imagética, que justamente se sintoniza com o espírito surrealista. Poderemos considerar as obras de artistas plásticos como o revolucionário Flávio de Carvalho, Ismael Nery e Maria Martins, os romances de Campos de Carvalho e os contos de Samuel Rawett, todos com sua peculiaridade característica.

O surrealismo é um produto da psicanálise ou já existia antes?
O espírito surrealista é subversivo e anterior ao movimento surrealista. Na minha opinião, já estava explodindo nas veias de Nerval, Baudelaire, Rimbaud, Tristan Corbière, Lautréamont. Não é por outra razão que o próprio André Breton viu ecos desse espírito em autores como Dante, Lautréamont, e dizia que “Baudelaire é surrealista na moral, Rimbaud é surrealista na prática da vida e alhures”.

Esta tendência surreal é uma reação ao mundo de hoje?
Seria melhor dizermos que há reapropriações, recriações, e portanto, novas criações do que propriamente uma tendência surrealista. Vários artistas plásticos e escultores contemporâneos impressionam por meio de uma visualidade espantosamente “surrealista” como Cheng Wenling, Zhang Huang, Cai Guo Qiang, Zhang Xiaogang, Mark Ryden, Bob Wilson, Matthew Barney, Huma Bhabha, fotógrafos como Brooke Shaden e Sandy Skoglund, cineastas como David Lynch, Cronenberg, Tsai Ming Liang e Lars von Trier, dentre muitos outros, além de escritores como Herberto Helder, Serguilha e Cláudio Willer. É notável que aquela concepção da imagem e da colagem surrealista tenha adquirido um vigor surpreendente em alguns artistas contemporâneos. A arte rompe com os padrões de gosto estético de sua época e adentra outros territórios inexplorados. É assim que acontece nesses casos onde os surrealistas “quebram” o próprio rótulo de surrealismo, alargando e ampliando os limites de sua arte.

Do que se trata seu novo livro e qual é a previsão de ser lançado?
Meu novo livro se chama Metacorporeidade. É composta pela prosa poética longa Philomundus, pelos poemas Metacorporificações, pelas imagens das esculturas e da performance Philomundus e pelos ensaios reflexivos sobre o novo conceito de metacorporeidade, trabalhos do LOZ-2962 STUDIO. O livro vem me consumindo bastante, está ganhando vida (rsss) e acompanha a nossa trajetória de realizações. Talvez saia em 2013. É interessante que a partir das interconexões imaginárias que alinham o questionamento da identidade/território/corpo com a pesquisa da linguagem poética, da performance e da problemática intrínseca aos materiais utilizados na escultura, desdobraram-se todas essas criações.

Seu processo de criação é natural ou você tem rituais?
É curioso que quando estava escrevendo meu livro de poesia Naufrágios, frequentemente me encontrava em “passagem” de um lugar para outro. Deslocava-me do centro de São Paulo para Embu das Artes, e das periferias de Embu para o centro de Embu e de São Paulo e também entre vários lugares de São Paulo. Não é por outra razão que dois poemas do livro possuem os títulos de “Território” e “No Embu das Artes”. Esta sensação concreta de espaços, territórios e lugares combinava-se com a questão da minha identidade chinesa e da minha formação híbrida. Sabe aquela sensação de estarmos num território desconhecido, como se estivéssemos olhando minuciosamente cada nuance em vibração com olhos de caçador? Entendo esse ritual como permanente deslocamento tanto para dentro de mim quanto para fora. Começo a criar na medida em que submeto meu corpo às estranhas e imprevisíveis situações, desde como caminhar no cemitério do centro de Embu das Artes até o ato mesmo de escrever em completa solidão. A performance Philomundus surgiu a partir da criação de um estado de ser para outro estado de ser, o que me levou ao processo de pesquisa/criação do que chamo de “modulação metacorpórea” que se expande, por um lado, em variações de esculturas, e por outro, em variações de texturas sonoras espacializadoras. Nesse caso, o corpo, o escultor que esculpe e é esculpido, que afeta e é afetado pelos “lugares” do mundo, se metacorporifica “com” as outras texturas da matéria. Minha amizade com o escultor brasileiro Irael Luziano fez uam bela “guinada” nesse momento. Ainda mais eu que sou de uma outra cultura. A aliança entre duas culturas diferentes está frutificando em novos sentidos, esculturas, performances, questionamentos e reflexões.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.